O Existencialismo em Uma Aprendizagem ou o Livro dos PrazeresElka Viviana de Paula
Josafá Alecrim de Almeida
Jamile Alves dos Anjos
Malane Apolonio da Silva
Maria Aurinívea Sousa de Assis**
Resumo: Este artigo se propõe a realizar um estudo da narrativa Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, em diálogo com conceitos de O Ser e o Nada Ensaio de Ontologia Fenomenológica, de Jean Paul- Sartre, ressaltando a busca pela consciência de si, do mundo e do outro, como bases para uma interpretação dos personagens Loreley e Ulisses. Nesta junção pontuam-se, também, aspectos mitológicos que se conciliam ao perfil existencialista dos protagonistas.
1. Introdução
Realizando um diálogo entre a obra Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, conceitos de O Ser e o Nada de Jean Paul- Sartre e aspectos mitológicos, evidencia-se, neste artigo, o caráter existencialista da trajetória dos personagens Loreley e Ulisses em busca pela aprendizagem, contemplando o prazer de existir.
A narrativa Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector foi publicada em 1969 pela Editora Sabiá e recebeu o prêmio “Golfinho de Ouro” do Museu da Imagem e do Som. A história ocorre na cidade do Rio de Janeiro e conta as angústias da personagem Loreley, devido a sua condição de ser Para si que, através do personagem Ulisses, embarcará em uma viagem de conhecimentos, dando ênfase as necessidades existenciais demonstradas por Loreley.
2. Loreley, um ser Para si.
Em Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres o ser se revela na figura de uma personagem feminina chamada Loreley, que tinha um corpo fino e forte, cabelo castanho, certo mau gosto para vestir-se: “Olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher” Professora do primário que saiu da casa de seus pais em Campos, a procura de uma liberdade, passando a morar no Rio de Janeiro, onde casualmente conheceu Ulisses, professor de Filosofia, este se apaixonou por Lóri em seu primeiro encontro, sentindo-se atraído fisicamente por ela, como afirma a citação a seguir:
(...) Você estava esperando um taxi e eu, depois de olhar muito para você, pois fisicamente você me agradava, simplesmente abordei você com um começo de conversa qualquer sobre a dificuldade de encontrar um taxi àquela hora, ofereci-lhe levá-la no meu carro para onde você quisesse, no fim de cinco minutos de rodagem convidei você para um uísque e você sem nenhuma relutância aceitou.
O personagem Ulisses não ensinaria a Lóri conceitos filosóficos, mas a conduziria a uma bela e encantadora viagem que lhe proporcionaria o conhecimento de si própria e conseqüentemente do mundo ao seu redor, que há muito tempo era invisível para ela. Uma aprendizagem que vinculada a interação com o outro revelaria a autonomia.
Desde as primeiras páginas da narrativa, Loreley demonstra a complexidade do ser Para si, ao qual existe enquanto ser pensante, reflexivo e transformador da realidade. O Para si é um dos conceitos centrais da obra, O Ser e o Nada, de Jean Paul- Sartre escrito na Alemanha, em 1943, período em que o país enfrentava a Segunda Guerra Mundial, trazendo para o século XX o marco da estabilidade do movimento filosófico existencialista.
Segundo Sartre, o ser Para si encontra no mundo exterior afirmação para convicções internas, com isso a realidade externa constrói a consciência. Sabe-se que a liberdade do sujeito está condicionada a ações diversificadas, ou seja, Lóri teria que se adaptar a uma nova maneira de existir, agora longe dos limites antes vivenciados, sendo ela, responsável por seus atos.
Loreley interroga-se em frente ao espelho, símbolo de desmistificação da alma, momento em que se penetra na máscara que a disfarça, buscando em seu reflexo interior o verdadeiro eu, que escondido atrás de um modelo socialmente aceito, guarda a pureza ou talvez a maledicência de si própria. Tal confronto assemelhava-se, para Lóri, a um ritual transcendente, proporcionando descobertas de um segredo ou simplesmente a contemplação do mesmo, como afirma a citação a seguir:
Ter um corpo único circundado pelo isolamento tornava tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então se amedrontava de ser uma só, olhou-se avidamente de perto no espelho e se disse deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte, e a curva dos lábios manteve a inocência.
O ser existe, só depois se definirá, antes disso o ser é nada, o próprio se projetar é a certeza de que o ser está buscando a construção de si mesmo rumo ao ser que ele não é. Saber que existe é parte primordial para a consciência, descobrindo motivações que se originam da liberdade, ou seja, o fato de estar sendo lhe remete a necessidades que constituem o Para si, como diz Sartre: O Para si é necessário enquanto se fundamenta a si mesmo. E por isso é o objeto refletido de uma intuição apodítica: não posso duvidar que sou. Partindo deste pressuposto é fundamental atentar para a estrutura da narrativa, que se inicia com uma vírgula, pois sendo Loreley um ser Para si, a ânsia por novas perspectivas e essências momentâneas é muito bem representada pela vírgula que simboliza a continuidade, e subentende-se que represente o caminho a ser percorrido para a aprendizagem, revelada pela realidade humana que surge das faltas encontradas em si própria, e Loreley consciente de sua incompletude, buscará transcender a uma totalidade que nunca ocorrerá.
A relação amorosa vivenciada por Loreley e Ulisses traz características comportamentais que dialogam com aspectos dos personagens míticos de A Odisséia e o mito alemão chamado Loreley, como explica O Ulisses de Clarice na narrativa: “Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão cantado num belíssimo poema de Heine.” A condição de sereia exalta a grande contemplação da personagem clariceana ao mar, que traz consigo uma simbologia atrelada entre o vai e vem das ondas, representando à inconstância, o movimento, a mudança, a possibilidade de ligação entre o real e o desconhecido. O mar é permeado de mistérios dado a sua grandeza e magnitude, e por possuir abismos desconhecidos ao homem, lugares insondáveis, podendo assim ser comparado a alma humana, é tido como o princípio de tudo, representa o início ou renascimento de um novo ser. Em vários momentos Loreley ligou-se a essa simbologia, quando percebe que em sua personalidade há diversas nuances desconhecidas por ela. O contato com o mar concretizou o que Lóri antes desconhecia, ansiava por esse momento, sabia da necessidade desse encontro que a despertara de um “sono secular”, agora estava fertilizada de si mesma, ou seja, o seu ser revelou a consciência, como explica Sartre:”
O ser surge juntamente com a consciência, ao mesmo tempo em seu âmago e fora dele, e é a transcendência absoluta na imanência absoluta; não há prioridade do ser sobre a consciência nem da consciência sobre o ser: constituem uma díade. Sem dúvida este ser não poderia existir sem o Para-si, mas tampouco o Para-si poderia existir sem aquele.
Assim como o Ulisses de Homero que suportou os perigos do mar através de sua coragem, inteligência e paciência, esperando o seu retorno para casa e para o seu verdadeiro amor, o Ulisses de Clarice traz consigo esta herança de paciência e inteligência durante toda a narrativa, assim, ele, pacientemente, resiste aos encantos dela, pois sabia que Lóri não necessitava encantar, mais sim ser encantada pela esplêndida compreensão da vida, para que o amor fugisse aos limites carnais.
Loreley, em sua caminhada rumo ao conhecimento de si, esteve, durante certo tempo acompanhada de Ulisses como seu porto seguro, porém ele lhe deixou sozinha no final deste período de descoberta de si, para que ela pudesse criar uma autonomia, e recorrer ao que lhe faltava, ou seja, a essa ausência paradoxalmente unida a uma possível presença. E foi nesta ausência que Loreley se descobriu, sabendo que agora poderia ser vista, percebida.
A ponte que estava sendo criada entre Ulisses e Lóri tornou a realidade da vida desejada, ambicionada, pois o vazio que antes lhe sucedera agora se fazia total por instantes, devido as sucessões de faltas sobre uma nova percepção de si.
Passo a passo, a interiorização da relevância que a existência pode vir a ter é construída por Lóri, ou seja, a realidade humana começa a se fazer presente. Desde que Ulisses a induzira a escrever sua angústias, reproduzia-se em cada palavra o sentimento que a sufocava e o que a fazia ser inútil, pois escrever é constantemente aprender, formando-se novas percepções onde o sublime e esperado momento de escuridão germinava um novo ser. Assim a noite norteou a trajetória das escritas de Lóri, pois quando todos dormiam havia ali o seu momento único e individual, para refletir sobre suas novas aspirações e possíveis conquistas. Jean Chevalier traz em seu Dicionário de Símbolos alguns aspectos acerca da simbologia da noite, exemplificando-a como:
“A noite simboliza o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, que vão desabrochar em pleno dia como manifestação de vida. Ela é rica em todas as virtualidades da existência. mas entrar na noite é voltar ao indeterminado, onde se misturam pesadelos e monstros, as idéias negras. Ela é a imagem do inconsciente e, no sono da noite, o inconsciente se libera. como todo símbolo, a noite apresenta um duplo aspecto, o das trevas onde fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia de onde brotará a luz da vida."
A noite para Lóri agora certamente era a grande geradora de silêncio e, também, de reflexão. Estava fascinada como se em cada noite um degrau fosse construído na escada de sua aprendizagem, a passagem de uma fase simples para uma mais difícil e mais prazerosa. Ela ficava ansiosa para que a noite chegasse onde iria depositar todos os resultados do seu árduo caminho de aprendizagem.
Para Lóri a noite é uma mistura de escuridão e luzes, tristezas e alegrias, silêncios e gritos, encantos e mistérios, assim como sua vida: "Era uma noite diferente, porque enquanto Lóri pensava e duvidava, os outros dormiam”. É um momento de gestação do que ela vem a ser, é durante a noite que ela faz o que é mais doloroso para um ser humano, o questionamento do eu, pois se sentia incompleta, portadora de uma grande angústia que a incomodava e a fazia sofrer. Tinha certeza da chegada e da partida da noite, mas não sabia o que ia produzir, o que ia gerar para ser desabrochado logo que a luz do dia chegasse. Assim como a noite tem a madrugada para que o dia amanheça, Lóri também teve que passar pela madrugada do autoconhecimento.
2. O Para si como falta de.
Primeiro o ser percebe que existe, e na relação com o mundo e com o outro se colocará como falta de. Como uma forma de compensar a sua falta e de se fazer, deixa de ser o nada para construir a sua essência que só vem a ser possível em comunhão com as demais pessoas. É no próprio viver e experimentar que o ser do Para si se sentirá incompleto, então buscará nos objetos e nos outros espaços ou meios para compensar a sua própria falta:
É unicamente no mundo humano que pode haver faltas. Uma falta pressupõe uma trindade: aquilo que falta, ou faltante (Le manquant); aquilo que falta o que falta, ou o existente; e uma totalidade que foi desagregada pela falta e seria restaurada pela síntese entre o faltante e o existente: o faltado (Le manque)
Aquilo que falta, ou faltante: É o ser do Para si, ou tese, desse modo é através da consciência que a falta surge no mundo. Em Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, Lóri se coloca como falta: “Não havia se não faltas e ausência. E nem ao menos a vontade”. Ausência e falta fazem parte da realidade humana, o Para si está sempre em busca de aspirações porque é incompleto, e isso faz com que ele se coloque numa postura de está sempre precisando de algo ou lutando para conquistar. Essa é uma das normas fundamentais no existencialismo, o existir requer que o sujeito seja autêntico e livre no mundo, que se defina durante sua vida, procurando possibilidades ou criando-as, numa constante busca daquilo que falta. Aquilo que falta o que falta ou existente (ao qual falta alguma coisa): É o ser Em si aquilo que existe ou antítese. Ulisses, a busca pelo conhecimento e o relacionar-se com o outro são faltas na vida de Lori. Só querer ou desejar ter aquilo que não se tem, faz parte da natureza humana e até então Lóri não tinha uma relação de reciprocidade com os outros e não tinha o conhecimento que necessitava e nem Ulisses que tanto desejava, estas são as faltas. Agia como se estivesse sido hipnotizada por essas faltas e no decorrer de sua vida se angustiava para consegui-las, como bem nos fala Sartre: “Assim no mundo humano, o ser incompleto que se dá intuição como faltante é constituído em seu ser pelo faltado, ou seja, por aquilo que ele não é”. Dessa forma, a protagonista, angustiada diante de suas questões existencialistas, procura respostas, como nos afirma a narração que se segue: Mas a idéia de que a paciência de Ulisses se esgotaria a mão subiu- lhe a garganta tentando estancar uma angústia parecida com a que sentia quando perguntava “quem sou? quem são essas pessoas?” era como se Ulisses tivesse uma resposta pra tudo isso e resolvesse não dá-la e agora a angustia vinha porque de novo descobria que precisava de Ulisses, o que a desesperava. .
Para o mundo de Lóri vim a ter significado ela precisava transcender rumo ao faltado.
O faltado: É a conclusão, resultado ou síntese do faltante com a falta, essa transcendência só é possível com o conhecimento de si mesma e do mundo, o faltado é o fim último, é o objetivo. O desejo de Lóri é se unir a Ulisses e com este torna-se um, como não é possível amar uma pessoa sem antes amar várias outras, faz-se necessário ter uma relação sadia com os demais, então, procura amar-se a si mesma através da reflexão do conhecimento de si mediada pelo mundo para chegar ao seu porto seguro que é o descobrimento de novas experiências de aprendizagem.
3. Conhecimento mediado pelo mundo e por Ulisses
Aprender a viver, ter conhecimento de si e do mundo são os lemas de Lóri que tanto a angustia e a faz se sentir um nada, mas diante de tudo, inclusive do medo do fracasso, ela busca ser o que não conseguiu ser, sua coragem e audácia é fruto dos olhos fixos no faltado, apesar de, como o próprio Ulisses aconselha ela precisa transcender rumo a esse mundo que lhe cerca:
Não sabia o que fazer de si própria, já nascido, senão isto: Tu, ó Deus, que eu amo como quem cai no nada. Depois foi fácil telefonar para Ulisses e dizer-lhe que mudara de idéia e que podia ir esperá-la no bar. Era cruel o que fazia consigo mesma: aproveitar que estarem carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta. Mas doía demais mexer-se nesse sentido.
Uma das viagens complexas, e talvez, mais angustiantes é a do conhecimento, muitas vezes abre-se caminho, outras vezes feridas, e quanto mais se aprofundar nesse conhecimento se sofre, é claro que com tudo isso por mais paradoxal que pareça, a aprendizagem é grandiosa e bela. Esse sofrimento é necessário para que Lóri chegue ao conhecimento de si mesma, sendo assim, a aprendizagem se dá de forma lenta, tão lenta que nos dá a idéia de uma viagem longínqua, que nos é confirmado no inicio e no fim da obra clariceana, que começa com a vírgula e termina com dois pontos, propositalmente talvez para dizer que a protagonista estará sempre a aprender e vindo a ser, e aos poucos construindo sua vida, é o que nos diz o trecho seguinte: “Talvez fossem os seus “apesar de” que Ulisses dissera, cheios de angústias, e desentendimento de si própria, a tivesse levando a construir pouco a pouco uma vida. ” Lóri busca no exterior a reafirmação de seu existir por meio de Ulisses, que lhe ensina a ter uma relação de aprendizagem com o mundo dos fenômenos. Estar sempre se colocando para fora a procura de, ou voltar-se para dentro de si é característica da consciência, ou seja, trata-se de um ser sempre voltado para o transcendente sem esquecer-se de si próprio. Esta relação é exclusivamente do Para si. Em Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, é usada toda uma simbologia para se chegar ao conhecimento de si, e do mundo a exemplo da maçã, que nos dá a idéia de bem e mal, vida e morte, ou seja, passagem transcendental. Dessa forma a maçã sempre será vista de duas maneiras que se contrapõem:
A maçã é simbolicamente utilizada em diversos sentidos aparentemente distintos, mas que mais ou menos se aproximam: é o caso do pomo da discórdia, atribuído ao herói Páris; dos pomos de ouro do jardim das Hespérides, que são frutos de imortalidade; da maçã consumida por Adão e Eva; da maçã do Cântico dos Cânticos que representa, ensina Orígenes, a fecundidade do Verbo divino, seu sabor e seu odor. Trata-se, portanto, em todas as circunstâncias, de um meio de conhecimento, mas que ora é o fruto da Árvore da Vida, ora o da Árvore do Conhecimento do bem e do mal: conhecimento unificador, que confere imortalidade, ou conhecimento desagregador, que provoca a queda. (...) A maçã seria o símbolo deste conhecimento [do bem e do mal] e a colocação de uma necessidade: a de escolher.
Lóri também reconhece na maçã o fruto do conhecimento, pois quando é movida para um momento crucial de análise, o ato de morder a maçã lhe conferiu um momento de autoconhecimento. Ao contrário de Eva, Lóri ao degustar o fruto é levada a um estado de êxtase, levada como ela própria diz “ao Paraíso”. A partir daquele momento ela não só conhece o mal, mas também se norteia do bem, o bem que lhe confere graça, que a faz esquecer a sua “Dor de ser” como também faz com que ela transponha caminhos para uma profunda aprendizagem:
Foi no dia seguinte que entrando em casa viu a maçã solta sobre a mesa. Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maca com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a mesa para vê-la como antes. E era como se visse a fotografia de uma maçã no espaço vazio. Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate — então devagar, deu-lhe uma mordida. E, oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso. Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo — de um estado de graça.
Na história judaico-cristã a simbologia ou mito do fruto proibido surge com o propósito de nos dá uma resposta à origem do mal, embora no contexto bíblico não cite o nome do fruto. Designou-se a maçã como tal, talvez por sua beleza, doçura e leveza além de ficar conhecida também como fruto do conhecimento, que representa não só o elemento proibido para Adão e Eva, o ato maior de desobediência a uma ordem dada por Deus, como também estão contidas várias outras conotações, como as da liberdade e da escolha. Partindo desse princípio, o fato do primeiro casal conhecer o fruto o induziria a muitos questionamentos relativos à sua devida obediência ao criador. Representa a escolha humana do conhecimento entre o bem e o mal, percebe-se isso na citação Bíblica que diz:”E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim, comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (BÍBLIA, Gênesis, pag.4. cap.2. v16, 17). Através de uma vida fora do Éden eles seriam levados a fazer várias opções, a escolha de viver fora de um Paraíso perfeito, de terem suas responsabilidades e, conseqüentemente não dependerem tanto do seu progenitor, seria cortado, dessa forma, o cordão umbilical entre o criador e suas criaturas.
Na relação fenomênica entre o Para si e o mundo, este ser que em si mesmo é indeterminado, passa a sofrer uma determinação e uma significação que lhe é atribuída pela consciência. A consciência humana é, dessa forma, o único meio pelo qual as significações aparecem no mundo, ou seja, só o homem pode dar significado às coisas. O esforço perpétuo exigido por Ulisses a esse exercício de aprendizagem de si e do mundo, leva Lóri a precisar cada vez mais dele:
De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé — muita coragem, fé em quê?
Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo.
Ulisses era paciente porque sabia que o processo de aprendizagem é lento, que primeiro começa com o eu identitário, procurar saber quem é, afirmar ou reafirmar a própria individualidade para melhor relacionar. A aprendizagem se dá a nível de indivíduo, sendo um percurso que embora alguém possa ensinar, encaminhar, conduzir, requer o querer de cada um. Cada pessoa tem sua forma diferente de interiorizar o conhecimento, buscar o saber é também uma busca pela liberdade que o sujeito tanto quer e procura, daí vêm as novas formas de educação que prepara o sujeito para uma liberdade futura, autonomia econômica, familiar. No caso em questão, a liberdade e a aprendizagem de Lóri é muito importante para o seu crescimento intrapessoal, uma vez que a ajudará na sua relação com Ulisses e com os demais: “Você tinha mim dito que, quando me perguntasse meu nome eu não dissesse Lóri, mas “eu”. Pois só agora eu me chamo “eu”. E digo meu eu está apaixonado pelo teu eu. Então nós é. Ulisses, nós é original.” O outro é importante justamente porque ele nos devolve ou nos mostra o que somos isso só é possível se o ser Para si apresentar-se socialmente, como vê-se num dos pensamentos de Husserl, citado por Sartre:“porque toda consciência é consciência de alguma coisa”. Não tem como existir sem ter a consciência de outras coisas, sem ter essa relação com o mundo, este que me desloca para além do meu ser e me faz experimentar a sensação incômoda de existir. O outro pode ser tão fundamental na vida do sujeito como também pode ser um inferno, ou seja, quando busca evitar ou fazer com que esse outro não progrida na construção de seus sonhos, de sua essência. A esse respeito, Sartre afirma que: “A vergonha ou orgulho revelam-me o olhar do outro e, nos confins desse olhar revelam-me a mim mesmo; são eles que fazem viver não conhecer a situação do ser visto.” O que mais aflige Loreley é a constante busca por conhecimento, ou melhor, por autoconhecimento, a protagonista anseia que esse momento de busca se concretize com o tão esperado momento de encontro consigo mesma, atrelado a um desejo insciente que Lóri nutre pelo fruto do conhecimento, ou seja, pela maçã, sua fruta predileta. Esse fruto permeia uma total noção de proibição, atração e conseqüentemente descoberta, a trajetória de Loreley, dessa forma, é permeada por simbologias, conferindo a protagonista de um maior encantamento.
Lóri, encontra em Ulisses um novo caminho para o conhecimento, e também para o verdadeiro amor, pois o mesmo volta seu olhar para ela de um modo tão especial, que vem a contribuir para a sua formação. A partir do momento que ambos se encontraram, suas vidas não foram mais as mesmas, pois Lóri tinha fome, fome de saber e de amar. Enquanto ao saber, Lóri já tinha consciência do que era importante na sua formação, e sobre seu novo desejo de amar este era diferencial entre todas as experiências que ela já teve, pois algo deslumbrante acontecia em sua vida e a transportava para um lugar incomum.
Na escuridão da noite, ela pensava cada vez mais em se encontrar com Ulisses. Em um certo encontro, apareceu à porta com um suéter e um guarda-chuva vermelho, que, simbolicamente, pode ser lido como um remissão ao processo de maturidade que Lóri construiu. Estava novamente “virgem” para um novo “germinar”, compreendia essa mudança de fase de tal forma que ambicionada pela beleza do ato de estar vivendo. Questionou-se sobre quem ela era, e de súbito se assustara, pois não havia respostas, certamente jamais encontraria.
Fizera planos para a sua primeira noite ao lado de Ulisses, onde os dois encontrariam o uno, não suportava mais ser só, queria fundir-se a ele. Comprou um vestido branco, introduzindo a compreensão da pureza e inocência que agora a pertencia, e flutuou nos pensamentos mais carnais existentes entre um homem e uma mulher. A percepção de Ulisses sobre o estado de graça de Lóri proporcionou-lhe a liberdade de, querer ou não, vê-lo mais, sabendo ela que ele ainda estaria a sua espera.
A individualidade e interiorização com que compreendeu o mundo a fez mulher, com a mais perfeita das características, era conscientemente feliz e dona de si. Com muita coragem, foi ao encontro de Ulisses, concretizando uma noite inesquecível na qual ambos se amaram e conversaram a respeito de si mesmos e das conseqüências de viver socialmente. Nesse momento, Lóri quebra um dos tabus da sociedade para a qual a mulher não poderia ir ao encontro de um homem em sua casa e com este ter relação antes do casamento, sendo a mulher configurada como um símbolo de castidade e servidão.
Lispector, com uma literatura atenta às questões femininas, narra esse capítulo que revela a mulher contemporânea e como ela seria socialmente vista, pois Loreley quebra todas as regras que a definem e a sustentam. O Momento culminante em que se dá a aprendizagem de Loreley concretiza-se a partir do instante em que ela e Ulisses se entregam fisicamente um ao outro. A trajetória de Lóri toma então um novo rumo, ela deixa de se sentir um ser vazio, e passa a enveredar-se pelo caminho das novas descobertas, tornando-se um ser capaz de enfrentar qualquer desafio que as circunstâncias da vida vierem a lhe afligir, como afirma Lóri na narrativa: “_Não sei, meu amor, mas sei que o meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo”.
4. Considerações
Através de um estudo existencialista dos personagens clariceanos Loreley e Ulisses em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, percebe-se uma busca incansável pelo conhecimento de si, do mundo, que resulta numa jornada de saber e prazer, sempre aberto e contínuo.
A análise da personagem Loreley, neste artigo, foi de extrema relevância para nós, levando-nos a um envolvimento com uma narrativa carregada de simbologias que fizeram um estalo na existência da personagem. Loreley mostrou-se tão ausente de si mesma e, ao mesmo tempo, mascarada de medo, de dor e de uma singeleza que nos levou a perscrutá-la intimamente. Conseqüentemente a trajetória para a aprendizagem proporcionada por Ulisses revelou uma mulher preparada para a condição humana que se norteia entre faltas e, paradoxalmente, conquistas.
REFERÊNCIAS:
LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Especial ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.
SARTRE, Jean- Paul. O Ser e o Nada- Ensaio de Ontologia fenomenológica. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números) Ed. 23º José Olympio. Rio de Janeiro, 2009.
BÍBLIA SAGRADA. Gêneses. Edição Loyola, São Paulo, 2001.