sábado, 2 de julho de 2011

Adolescentes e o ato Infracional


O Brasil vive atualmente uma onda de violência como nunca vista antes. A mídia tem divulgado incessantemente a questão, sob o impacto de algumas infrações penais gravíssimas praticadas por adolescentes. Os delitos praticados por indivíduos com mais de dezoito anos de idade que são punidos com prisão e processos podendo resultar em condenação e cumprimento da pena em presídios Já o menor de dezoito anos de idade, de forma parecida, também responde pelos atos infracionais que cometem, porém com uma clara complacência.
             Após a Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que regulamenta os crimes que envolvem adolescentes menores de dezoito anos, pensava-se que a problemática referente aos menores infratores estivesse resolvida, ou no mínimo, reduzida ,porém não é o que se vê ,observa-se um grande aumento da criminalidade praticada na maioria das vezes por menores. O ECA ao promover a teoria da proteção integral, que distingue a criança e o adolescente como pessoas em condição diferenciadas de desenvolvimento, necessitando de proteção individualizada, especializada e integral não foi formulada com objetivo de manter a impunidade de jovens autores de infrações penais, tanto que criou diversas medidas sócio educativas.
              Busquemos fazer uma reflexão à cerca da questão do adolescente e o ato infracional, tomando como base aspectos socioeconômicos, sociais e individuais de interferência. Os fatores que podem colaborar para que o adolescente torne-se infrator são variados e complexos, são os denominados fatores intrínsecos – biológicos, genéticos, psicológicos e emocionais e os fatores extrínsecos – a família, os amigos, a televisão, a escola, os grupos sociais e a comunidade em que vivem, interferindo na formação do adolescente, podendo produzir danos individuais e para a sociedade, uma vez que o adolescente ainda é um cidadão em construção e alguns fatos podem prejudicar o seu desenvolvimento ético, moral e social. Sem, no entanto tentar justificar ou minimizar determinados atos, praticados por estes menores, mantendo sempre em vista a postura reflexiva e pesquisadora que possibilita uma diversidade de questionamentos em pró da discussão a respeito de ato infracional, menores infratores, medidas sócio  educativas e sua efetiva utilidade.         
Entre os atos infracionais praticados por menores estão, assaltos à mão armada, roubo seguido de morte, tentativa de homicídio, homicídio, uso e tráfico de drogas e entorpecentes, sempre praticados por menores de 18 anos, idade em que os jovens ainda não são responsabilizados criminalmente baseado, nisso é que se discute a diminuição da maior idade penal, atualmente os jovens em conflito com a lei são encaminhados para a FEBEM o que também tem suscitado discussões a respeito da efetiva utilidade das unidades,pois na maioria das vezes o jovem é internado e ao sair pratica delitos tão ou mais graves do que os anteriores, A discurssão, portanto não deveria ser a maioridade penal, que no cotidiano já está reduzida, mas, reformular o procedimento de execução das medidas aplicadas aos menores, corrigi-lo, colocar em funcionamento, aperfeiçoá-lo, buscando a recuperação destes menores que se envolvem em Infrações, com isso evita-se, que eles permaneçam na marginalidade.
         Uma observação deve ser feita quanto à idade, a gravidade do ato e por que não quanto à motivação, fatores como violência no âmbito familiar devem ser investigados, pois corresponde em grande parte para deformação do caráter desses jovens que têm histórico de violência na infância, e começa a ver determinadas condutas como normais e aceitáveis. Desde cedo esses jovens não têm acesso a valores indispensáveis a formação da sua personalidade, na maioria dos casos percebe-se que eles vêm de famílias desintegradas, com histórico de alcoolismo, o que quase sempre gera um ambiente ideal para violências físicas e psicológicas contra o menor, e que não raro determina a sua migração para as ruas, expondo-o cada vez mais a possíveis condutas infracionais. Outro fator preponderante e agravante nesse contexto é a falta de políticas publicas ou quantidade insuficiente delas, projetos que busquem promover formas de manter esses adolescentes em situação de risco  sob proteção através de assistência permanente, visando  evitar a inserção desses jovens na criminalidade.
         Constantemente ocorre o equivoco de pensar que a responsabilidade sobre o futuro desses jovens é unicamente do Estado ou unicamente da família, enquanto essa ideia perpetuar-se a questão dos menores infratores não será solucionado, esse posicionamento serve tão somente para disfarçar as falhas dos Poderes, das Instituições, da Família e da Sociedade e, por outro lado, desmascara a falta de coragem de muitos em encarar o problema na sua raiz, na sua base, que consiste em de fato verificar quais as necessidades desses menores, e onde o sistema falhou, o que desencadeou as condutas marginais, para a partir daí desenvolver soluções eficientes.
       Essa realidade dos mores infratores foi demonstrada claramente na obra de José Louzeiro, Pixote-Infância dos Mortos, que conta a historia de meninos de rua, sem família, sem estudo e sem perspectiva de uma vida mais digna. São crianças que tiveram a infância roubada pelo mundo das drogas e do crime. Vivem à mercê da sorte. Não vão à escola, mas as ruas se incubem de ensinar-lhes as lições. Desconhecem onde vão dormir ou o que comer, mas sabem o que fazer para resolver esse problema. Em algum momento até sonham em mudar de vida, mas os sonhos acabam se convertendo em esperança de se tornar conhecido no mundo do crime, infelizmente a obra retrata a crença de inúmeros jovens que vêm à prática de delitos como sendo a saída para seus problemas e necessidades.
Dentre os artigos do ECA o 5°,resume de forma eficiente o que, se fosse realmente obedecido mudaria a realidade  atual, observemos a seguir:

 Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligencia, discriminação, exploração, violência crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão a seus direitos fundamentais. (ECA, ART5°)

Porém o que verificamos é a violação diária desse artigo, então como exigir que as crianças e adolescentes não cometessem atos que também violem o código penal, como exigir dessas pessoas ainda em construção uma postura adequada , quando o sistema age com eles de forma inadequada, possibilitando e criando fissuras para que eles desenvolvam uma conduta marginal, sendo necessário depois a adoção de medidas sócio educativas como meio de punição, e aqui é muito pertinente o comentário de Bernard Shaw :
A pena deve ser considerada em seu duplo objetivo punitivo e regenerativo. Para regenerar uma pessoa é preciso melhorá-la. Para punir uma pessoa é preciso injuriá-la. Não se conhece uma pessoa que tenha melhorado sendo injuriada.
             A questão é: as medidas sócio educativas cuja função é regenerar o menor infrator de fato cumprem a sua proposta ou simplesmente funcionam como paliativo para determinadas situações? Entre as medidas determinadas pelo ECA estão:
·         Advertência;
·         Obrigação de reparar o dano;
·         Prestação de serviços à comunidade;
·         Liberdade assistida;
·         Inserção em regime de semi liberdade;
·         Internação em estabelecimento educacional;

As medidas sócio educativas descritas acima funcionam como reprimenda aos atos ilícitos praticados por adolescentes transgressores e têm por finalidade a sua reeducação e reintegração à sociedade, e como prioridade corrigir o adolescente infrator. O Estatuto da Criança e do Adolescente não procura meramente punir menores, mas, antes de qualquer coisa, visa proteger crianças e adolescentes. Buscando a recuperação daqueles que erraram movidos por inúmeros fatores sociais, ou até mesmo por sua imaturidade, objetivando sempre, reeducá-los para que possam retornar à sociedade, conscientes de seus direitos e deveres 
         Levando em consideração que o problema dos menores é uma questão histórica que aparece como uma conseqüência  direta da escravidão e desde aquela época as autoridades já se mostravam preocupados “dizendo que existiam na capital, disseminados por todos os pontos, muitos menores do sexo masculino, que, sem amparo, proteção e recursos, que lhe proporcionassem subsistência entregavam-se a pratica de delitos e vícios”. (Dimenstein, p.104) Esses meninos eram filhos de escravos que por falta de qualificação, encontravam dificuldades pra entrar no mercado de trabalho, nascendo assim uma espécie de exclusão social, a dificuldade era tão grande que logo após a promulgação da lei Áurea que libertou os escravos, o parlamento assinava o decreto de repressão a ociosidade, logo em seguida foi criado os ‘’ asilos correcionais’’ para crianças e adolescentes, desde essa época o problema tem se agravado visivelmente.
             Ora se tão rápido o problema foi detectado e foram criados meios de correção ,por que não foram criados meios de prevenção para que fosse evitado ás proporções gigantescas que o problema tomou, é urgente a formulação de políticas publicas que priorizem mais as crianças e os adolescentes, do contrario a sociedade vivera refém do medo, como também é imprescindível um olhar sensível as necessidades do menor, pois na maioria das vezes eles também são vitimas do descaso da sociedade.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O trabalho na construção da dignidade humana


      Desde os primórdios da raça humana ficou estabelecido que o homem proveria o seu sustento e da sua prole com o seu suor, para mulher cabia cozinhar, cozer e cuidar dos filhos, porem essa realidade vem mudando no decorrer da historia.
    Observamos cada vez menos a necessidade da força braçal para realização de trabalhos antes designados só para os homens. Com as inovações tecnológicas, percebemos a substituição da mão de obra humana por maquinas, daí vem a necessidade de um novo trabalhador, qualificado, especializado, com capacidade e autonomia para tomar decisões. Outra mudança perceptível é a ascensão da mulher no mercado de trabalho, derrubando preconceitos e proporcionando á sociedade a oportunidade de observarem cada vez mais o sucesso da inversão de papeis.
    Todavia tanto para mulher quanto para o homem, para terem seu trabalho reconhecido e valorizado é necessário qualificação, que a sua pratica e potencial, sejam validados por autoridades discursivas institucionalizadas, para que cada vez menos ocorra casos de  exploração e sub-valorização da  mão de obra, que o cidadão possa reconhecer os seus direitos e tenha subsídios para defende-los,uma vez que ,segundo Foucault toda forma de conhecimento é poder.    

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Ordem do Discurso

A ordem do discurso


 O protesto que fizemos em Barra do Mendes no último dia 28/04,foi para mim uma aula viva, enquanto panfletava ouvia o excelentíssimo SR. Gov. Wagner e lembrava de FOUCAULT e as conexões entre o que ele dizia e as observações de Foucault aconteciam quase que involuntariamente.
Segundo Foucault em todo discurso está inserido uma ideologia, mesmo que esta seja colocada de forma subjetiva, mas que ainda assim tenta disseminar as convicções de determinado autor,ele observa que os discursos vêm se transformando ao longo da historia,sofrendo rupturas, baseado em novas concepções, (aqui não posso deixar de citar a tal conexão,pois bem: Em 2002 Wagner Disputa pela primeira vez o governo da Bahia. No início da campanha, apresenta 2% das intenções de votos. Ao final da eleição, mesmo derrotado, atinge a surpreendente marca de 38% dos votos válidos, conquistando mais de 2 milhões de eleitores. Convidado pelo presidente Lula, assume o Ministério do Trabalho e Emprego. Reformulou as políticas de emprego e renda, responsáveis pela criação de 4 milhões de empregos entre 2003 e 2006. Jaques Wagner também foi reconhecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pela luta contra o trabalho escravo. Wagner assume a Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento e Social da Presidência da República. É responsável direto pelo diálogo entre o governo, agentes econômicos, sociais e populares, foi esse mesmo homem que no dia 28/04 disse que não têm a menor condição de rever,eu disse “rever”- a revogação do decreto 12.586/2011, que alunos e professores fossem cobrar do reitor as suas reivindicações,que sequer senta para negociar com as categorias...aí vem mais uma promessa de campanha...  Neste ano de 2011, nosso compromisso é o Pacto pela Educação. Este pacto que envolve diretamente as prefeituras, pais, alunos, professores e gestores pelo objetivo comum de melhorar o ensino fundamental em todos os municípios, e assim provocar uma grande mudança na educação do nosso estado. Isso terá um enorme impacto na qualidade do ensino médio e na educação profissional, nos quais vamos continuar investindo. É preciso um bom alicerce para que nossas crianças possam seguir em frente.”aí eu pergunto seguir em frente para onde? Para as faculdades estaduais?Ora a realidade é clara, houve e esta havendo uma ruptura dos discursos, a questão é porque ,para que  e a bem de quem? Da maioria com certeza não é, será neste contexto que Foucault coloca que o discurso esta intimamente ligado ao poder que o autor nunca profere tudo a respeito de determinado assunto ,mantendo assim uma certa superioridade que lhe é atribuída devido ao conhecimento nascendo assim o conceito saber/poder.
     A sociedade apesar de conviver com vários tipos de discurso, desenvolveu um certo medo e como conseqüência criaram-se sistemas de controle para tentar dominar a proliferação de discursos, entre eles está  a interdição “Não se tem o direito de dizer tudo ,que não se pode falar de tudo em qualquer circunstancia” e há também quem está habilitado ou autorizado a pronunciar determinado discurso,seja ele político ,religioso ou social,(nosso mega-fone que o diga,pois nem sequer saiu da mochila).
E para fechar a conta o Gov. disse que a verba vai e que não é pouca, aí me lembrei de Foucault novamente daquela “vontade de verdade” onde se enfrentam o verdadeiro e o falso e tive que me contentar em concordar com Foucault quando diz que “não há uma verdade e sim verdades institucionalizadas” e quem sou eu para desmentir?



Referencias:
Agecom - Assessoria Geral de Comunicação Social do Governo do Estado da Bahia
A ordem do discurso
Autor: FOUCAULT, MICHEL
Editora: LOYOLA


terça-feira, 3 de maio de 2011

De uma pessoa especial...

Imagino-te dançando, rodopiando
Descalça, braços abertos, rosto erguido
Recebendo a chuva em seu gotejar
Imagino-te me olhando, me amando
Alma nua, coração doado, corpo dorido
Recebendo de mim amor sem par.

Imagino-nos assim
Fazendo poesia no ser
Eternamente por mim
Num amor sem fim
Por tanto te querer

Imagino-te assim, dando graças à vida
De braços abertos abraçada por Deus
Amor meu, te imagino assim querida
De coração aberto para os braços meus...

O Cânone

Estou aproveitando esse período de recesso forçado para fazer algumas reflexões..passeando pelas prateleiras  da  biblioteca da UFBA ( me perco quando chego lá) ...,voltando as reflexões,folhei varias obras ,sempre pensando em  Bloom, e na questão  do Cânone,cada “M” considerada Cânone,enquanto  algumas obras brilhantes  sequer são conhecidas.
Observando o fato de que a defesa e a crença em determinadas ideologias é algo muito pessoal, entende-se assim que Bloom defende a permanência do Cânone como forma de eleger uma literatura como sendo ideal e perfeita, promovendo assim uma cultura elitista e de exclusão ,quando sabe-se que existe diversas  obras e  autores  tão bons quanto os defendidos por Bloom,mas que dificilmente participara do rol canônico .
Para Leila Perrone-Moisés ”Bloom incorre na defesa de valores anglófilos e na conversão do cânone em manifesto de ordem pessoal” (mais um motivo para discordar dele)..”de onde veio a  idéia de conceber uma obra  literária  que o mundo não deixasse voluntariamente morrer?”segundo Bloom coloca, essa pergunta é defendida perfeitamente nos sonetos de Shakespeare,cânone que teve sua a sua origem nas questões religiosas ,tornou-se uma escolha entre textos  que  lutam uns  com os outros  em busca da sobrevivência e imortalidade.Ele coloca que membros do movimento intitulado por ele mesmo como “membros da escola do ressentimento” sugerem que as obras entram no Cânone graças a campanhas bem sucedidas de publicidade e propaganda, oxalá que isso nunca a venha a se confirmar ou teremos que futuramente utilizar as “obras” de Paulo Coelho  como material de estudo,passível de discurssão.
Algumas posturas de Bloom são extremamente monopolizadoras e estagnadas, quando defende alguns autores como sendo os únicos detentores da possibilidade de serem  estudados e admirados por suas obras que contemplam tanto o estranhamento  quanto a estética ,promovendo assim um sistema de inclusão e exclusão ,invalidando a escolha de outros colegas que não engrossa a fileira da sua generalização,chamando-os de “ralé acadêmica”.Conclui-se portanto que as obras de Bloom deve ser lidas com uma postura critica e por pessoas com autonomia para concordar ou discordar de suas colocações, se assim não for corre-se o risco de tornar cada vez mais densa a massa de alienados.

domingo, 1 de maio de 2011

Resenha "Eu sou a Lenda"



 Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias – DCHT
Campus XVI – Irecê-BA
Cena do filme 'Eu sou a lenda' / DivulgaçãoCurso – Letras
Disciplina – SIPE
Docente – Lucileide Davi
Discente – Elka Viviana de Paula







I AM LEGEND (Eu Sou a Lenda, no Brasil e em Portugal) é um filme pós-apocalíptico de ficção científica/terror de 2007, dirigido por Francis Lawrence e estrelado por Will Smith.


CONTRADIÇÃO



Segundo Rubem Alves, nem sempre as descobertas científicas se dão utilizando somente os métodos científicos. “O termo método que significa literalmente seguindo um caminho do grego meta, junto, em companhia, e dodós, caminho se refere a especificação dos passos que devem ser tomados, numa certa ordem, a fim de alcançar um determinado fim”. (Filosofia da Ciência, p. 133)
No filme Eu sou a lenda, o personagem interpretado por Will Smith adota o método de testes ou experimentos utilizando cobaias.
Rubem Alves diz ainda:

O fato é que os cientistas freqüentemente se vêem incapazes de explicar como as idéias lhes ocorrem, elas simplesmente aparecem, repentinamente, sem que tenham sido construídas passo a passo, por um procedimento metodológico. (ALVES, 1996)

Esse discurso encontra fundamento teórico nas idéias de Gauss, Popper, Polany e Feyerabend que confessam a presença de um fator imponderável no trabalho científico: A criatividade e a obra em questão ressalta essa criatividade quando o ator faz vários testes, com cobaias de diferentes tamanhos e com doses diferentes, observando sempre o tempo e o nível da reação.
Contudo o filme apresenta dois pontos claros de Contradição, primeiro quando usa o título de “Eu sou a lenda” para contar a história de uma experiência científica. Uma vez que lenda é uma narrativa de cunho popular transmitida de forma oral e que não podem ser comprovada cientificamente, daí vem todo o surrealismo do roteiro do filme contradizendo o discurso científico.
No decorrer do filme não fica claro porque o personagem interpretado por Will Smith não contrai o vírus, e no final com o surgimento de mais dois personagens que também de forma inexplicável estiveram em contato com as pessoas contaminadas e não o contraíram, sugerindo uma proteção divina, o que também vai de encontro com o discurso científico.
O filme também em vários momentos apresenta elementos simbólicos, quando o ator tem flashes de momentos passados com sua família, onde a imagem da borboleta surge como elemento transmissor de determinada mensagem, que supostamente orienta o autor na decisão a ser tomada. Nesses momentos pode-se claramente fazer uma inferência entre este filme e “O mistério da libélula”, outro famoso filme americano que utiliza a todo o momento de elementos simbólicos para transmitir mensagens.
O filme faz uma coletânea de discursos científico, simbólico, popular, religioso tornando a obra facilmente questionável e claramente surreal.  

quinta-feira, 28 de abril de 2011

3º SIPE

  Seminário Interdisciplinar de Pesquisa e Estágio SIPE III


O Existencialismo em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
Ailane Dias da Silva [1]
Elka Viviana de Paula
Josafá Alecrim de Almeida
Jamile Alves dos Anjos
Malane Apolonio da Silva

Maria Aurinívea Sousa de Assis**



Resumo: Este artigo se propõe a realizar um estudo da narrativa Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, em diálogo com conceitos de O Ser e o Nada Ensaio de Ontologia Fenomenológica, de Jean Paul- Sartre, ressaltando a busca pela consciência de si, do mundo e do outro, como bases para uma interpretação dos personagens Loreley e Ulisses. Nesta junção pontuam-se, também, aspectos mitológicos que se conciliam ao perfil existencialista dos protagonistas.


1.      Introdução

Realizando um diálogo entre a obra Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, conceitos de O Ser e o Nada de Jean Paul- Sartre e aspectos mitológicos, evidencia-se, neste artigo, o caráter existencialista da trajetória dos personagens Loreley e Ulisses em busca pela aprendizagem, contemplando o prazer de existir.
A narrativa Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector foi publicada em 1969 pela Editora Sabiá e recebeu o prêmio “Golfinho de Ouro” do Museu da Imagem e do Som. A história ocorre na cidade do Rio de Janeiro e conta as angústias da personagem Loreley, devido a sua condição de ser Para si que, através do personagem Ulisses, embarcará em uma viagem de conhecimentos, dando ênfase as necessidades existenciais demonstradas por Loreley.

2. Loreley, um ser Para si.                 
                                                                                
Em Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres o ser se revela na figura de uma personagem feminina chamada Loreley, que tinha um corpo fino e forte, cabelo castanho, certo mau gosto para vestir-se: “Olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher”  [3] Professora do primário que saiu da casa de seus pais em Campos, a procura de uma liberdade, passando a morar no Rio de Janeiro, onde casualmente conheceu Ulisses, professor de Filosofia, este se apaixonou por Lóri em seu primeiro encontro, sentindo-se atraído fisicamente por ela, como afirma a citação a seguir:

(...) Você estava esperando um taxi e eu, depois de olhar muito para você, pois fisicamente você me agradava, simplesmente abordei você com um começo de conversa qualquer sobre a dificuldade de encontrar um taxi àquela hora, ofereci-lhe levá-la no meu carro para onde você quisesse, no fim de cinco minutos de rodagem convidei você para um uísque e você sem nenhuma relutância aceitou. [4]
                                                                                                                                      

O personagem Ulisses não ensinaria a Lóri conceitos filosóficos, mas a conduziria a uma bela e encantadora viagem que lhe proporcionaria o conhecimento de si própria e conseqüentemente do mundo ao seu redor, que há muito tempo era invisível para ela. Uma aprendizagem que vinculada a interação com o outro revelaria a autonomia.
Desde as primeiras páginas da narrativa, Loreley demonstra a complexidade do ser Para si, ao qual existe enquanto ser pensante, reflexivo e transformador da realidade. O Para si é um dos conceitos centrais da obra, O Ser e o Nada, de Jean Paul- Sartre escrito na Alemanha, em 1943, período em que o país enfrentava a Segunda Guerra Mundial, trazendo para o século XX o marco da estabilidade do movimento filosófico existencialista.
Segundo Sartre, o ser Para si encontra no mundo exterior afirmação para convicções internas, com isso a realidade externa constrói a consciência. Sabe-se que a liberdade do sujeito está condicionada a ações diversificadas, ou seja, Lóri teria que se adaptar a uma nova maneira de existir, agora longe dos limites antes vivenciados, sendo ela, responsável por seus atos.
Loreley interroga-se em frente ao espelho, símbolo de desmistificação da alma, momento em que se penetra na máscara que a disfarça, buscando em seu reflexo interior o verdadeiro eu, que escondido atrás de um modelo socialmente aceito, guarda a pureza ou talvez a maledicência de si própria. Tal confronto assemelhava-se, para Lóri, a um ritual transcendente, proporcionando descobertas de um segredo ou simplesmente a contemplação do mesmo, como afirma a citação a seguir:
Ter um corpo único circundado pelo isolamento tornava tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então se amedrontava de ser uma só, olhou-se avidamente de perto no espelho e se disse deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte, e a curva dos lábios manteve a inocência. [5]


O ser existe, só depois se definirá, antes disso o ser é nada, o próprio se projetar é a certeza de que o ser está buscando a construção de si mesmo rumo ao ser que ele não é. Saber que existe é parte primordial para a consciência, descobrindo motivações que se originam da liberdade, ou seja, o fato de estar sendo lhe remete a necessidades que constituem o Para si, como diz Sartre: O Para si é necessário enquanto se fundamenta a si mesmo. E por isso é o objeto refletido de uma intuição apodítica: não posso duvidar que sou.[6]
Partindo deste pressuposto é fundamental atentar para a estrutura da narrativa, que se inicia com uma vírgula, pois sendo Loreley um ser Para si, a ânsia por novas perspectivas e essências momentâneas é muito bem representada pela vírgula que simboliza a continuidade, e subentende-se que represente o caminho a ser percorrido para a aprendizagem, revelada pela realidade humana que surge das faltas encontradas em si própria, e Loreley consciente de sua incompletude, buscará transcender a uma totalidade que nunca ocorrerá.
A relação amorosa vivenciada por Loreley e Ulisses traz características comportamentais que dialogam com aspectos dos personagens míticos de A Odisséia e o mito alemão chamado Loreley, como explica O Ulisses de Clarice na narrativa: “Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão cantado num belíssimo poema de Heine.”[7] A condição de sereia exalta a grande contemplação da personagem clariceana ao mar, que traz consigo uma simbologia atrelada entre o vai e vem das ondas, representando à inconstância, o movimento, a mudança, a possibilidade de ligação entre o real e o desconhecido.
O mar é permeado de mistérios dado a sua grandeza e magnitude, e por possuir abismos desconhecidos ao homem, lugares insondáveis, podendo assim ser comparado a alma humana, é tido como o princípio de tudo, representa o início ou renascimento de um novo ser. Em vários momentos Loreley ligou-se a essa simbologia, quando percebe que em sua personalidade há diversas nuances desconhecidas por ela. O contato com o mar concretizou o que Lóri antes desconhecia, ansiava por esse momento, sabia da necessidade desse encontro que a despertara de um “sono secular”, agora estava fertilizada de si mesma, ou seja, o seu ser revelou a consciência, como explica Sartre:”

O ser surge juntamente com a consciência, ao mesmo tempo em seu âmago e fora dele, e é a transcendência absoluta na imanência absoluta; não há prioridade do ser sobre a consciência nem da consciência sobre o ser: constituem uma díade. Sem dúvida este ser não poderia existir sem o Para-si, mas tampouco o Para-si poderia existir sem aquele. [8]

Assim como o Ulisses de Homero que suportou os perigos do mar através de sua coragem, inteligência e paciência, esperando o seu retorno para casa e para o seu verdadeiro amor, o Ulisses de Clarice traz consigo esta herança de paciência e inteligência durante toda a narrativa, assim, ele, pacientemente, resiste aos encantos dela, pois sabia que Lóri não necessitava encantar, mais sim ser encantada pela esplêndida compreensão da vida, para que o amor fugisse aos limites carnais.
Loreley, em sua caminhada rumo ao conhecimento de si, esteve, durante certo tempo acompanhada de Ulisses como seu porto seguro, porém ele lhe deixou sozinha no final deste período de descoberta de si, para que ela pudesse criar uma autonomia, e recorrer ao que lhe faltava, ou seja, a essa ausência paradoxalmente unida a uma possível presença. E foi nesta ausência que Loreley se descobriu, sabendo que agora poderia ser vista, percebida.
A ponte que estava sendo criada entre Ulisses e Lóri tornou a realidade da vida desejada, ambicionada, pois o vazio que antes lhe sucedera agora se fazia total por instantes, devido as sucessões de faltas sobre uma nova percepção de si.
Passo a passo, a interiorização da relevância que a existência pode vir a ter é construída por Lóri, ou seja, a realidade humana começa a se fazer presente. Desde que Ulisses a induzira a escrever sua angústias, reproduzia-se em cada palavra o sentimento que a sufocava e o que a fazia ser inútil, pois escrever é constantemente aprender, formando-se novas percepções onde o sublime e esperado momento de escuridão germinava um novo ser. Assim a noite norteou a trajetória das escritas de Lóri, pois quando todos dormiam havia ali o seu momento único e individual, para refletir sobre suas novas aspirações e possíveis conquistas. Jean Chevalier traz em seu Dicionário de Símbolos alguns aspectos acerca da simbologia da noite, exemplificando-a como:
“A noite simboliza o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, que vão desabrochar em pleno dia como manifestação de vida. Ela é rica em todas as virtualidades da existência. mas entrar na noite é voltar ao indeterminado, onde se misturam pesadelos e monstros, as idéias negras. Ela é a imagem do inconsciente e, no sono da noite, o inconsciente se libera. como todo símbolo, a noite apresenta um duplo aspecto, o das trevas onde fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia de onde brotará a luz da vida."[9]

 A noite para Lóri agora certamente era a grande geradora de silêncio e, também, de reflexão. Estava fascinada como se em cada noite um degrau fosse construído na escada de sua aprendizagem, a passagem de uma fase simples para uma mais difícil e mais prazerosa. Ela ficava ansiosa para que a noite chegasse onde iria depositar todos os resultados do seu árduo caminho de aprendizagem.
Para Lóri a noite é uma mistura de escuridão e luzes, tristezas e alegrias, silêncios e gritos, encantos e mistérios, assim como sua vida: "Era uma noite diferente, porque enquanto Lóri pensava e duvidava, os outros dormiam”[10]. É um momento de gestação do que ela vem a ser, é durante a noite que ela faz o que é mais doloroso para um ser humano, o questionamento do eu, pois se sentia incompleta, portadora de uma grande angústia que a incomodava e a fazia sofrer. Tinha certeza da chegada e da partida da noite, mas não sabia o que ia produzir, o que ia gerar para ser desabrochado logo que a luz do dia chegasse. Assim como a noite tem a madrugada para que o dia amanheça, Lóri também teve que passar pela madrugada do autoconhecimento.

2.      O Para si como falta de.
         Primeiro o ser percebe que existe, e na relação com o mundo e com o outro se colocará como falta de. Como uma forma de compensar a sua falta e de se fazer, deixa de ser o nada para construir a sua essência que só vem a ser possível em comunhão com as demais pessoas. É no próprio viver e experimentar que o ser do Para si se sentirá incompleto, então buscará nos objetos e nos outros espaços ou meios para compensar a sua própria falta:
É unicamente no mundo humano que pode haver faltas. Uma falta pressupõe uma trindade: aquilo que falta, ou faltante (Le manquant); aquilo que falta o que falta, ou o existente; e uma totalidade que foi desagregada pela falta e seria restaurada pela síntese entre o faltante e o existente: o faltado (Le manque)[11]

 Aquilo que falta, ou faltante: É o ser do Para si, ou tese, desse modo é através da consciência que a falta surge no mundo. Em Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, Lóri se coloca como falta:Não havia se não faltas e ausência. E nem ao menos a vontade”[12]Ausência e falta fazem parte da realidade humana, o Para si está sempre em busca de aspirações porque é incompleto, e isso faz com que ele se coloque numa postura de está sempre precisando de algo ou lutando para conquistar. Essa é uma das normas fundamentais no existencialismo, o existir requer que o sujeito seja autêntico e livre no mundo, que se defina durante sua vida, procurando possibilidades ou criando-as, numa constante busca daquilo que falta.    
Aquilo que falta o que falta ou existente (ao qual falta alguma coisa): É o ser Em si aquilo que existe ou antítese. Ulisses, a busca pelo conhecimento e o relacionar-se com o outro são faltas na vida de Lori. Só querer ou desejar ter aquilo que não se tem, faz parte da natureza humana e até então Lóri não tinha uma relação de reciprocidade com os outros e não tinha o conhecimento que necessitava e nem Ulisses que tanto desejava, estas são as faltas. Agia como se estivesse sido hipnotizada por essas faltas e no decorrer de sua vida se angustiava para consegui-las, como bem nos fala Sartre: “Assim no mundo humano, o ser incompleto que se dá intuição como faltante é constituído em seu ser pelo faltado, ou seja, por aquilo que ele não é”[13].  Dessa forma, a protagonista, angustiada diante de suas questões existencialistas, procura respostas, como nos afirma a narração que se segue:
Mas a idéia de que a paciência de Ulisses se esgotaria a mão subiu- lhe a garganta tentando estancar uma angústia parecida com a que sentia quando perguntava “quem sou? quem são essas pessoas?” era como se Ulisses tivesse uma resposta pra tudo isso e resolvesse não dá-la e agora a angustia vinha porque de novo descobria que precisava de Ulisses, o que a desesperava. [14].  

           Para o mundo de Lóri vim a ter significado ela precisava transcender rumo ao faltado.
O faltado: É a conclusão, resultado ou síntese do faltante com a falta, essa transcendência só é possível com o conhecimento de si mesma e do mundo, o faltado é o fim último, é o objetivo. O desejo de Lóri é se unir a Ulisses e com este torna-se um, como não é possível amar uma pessoa sem antes amar várias outras, faz-se necessário ter uma relação sadia com os demais, então, procura amar-se a si mesma através da reflexão do conhecimento de si mediada pelo mundo para chegar ao seu porto seguro que é o descobrimento de novas experiências de aprendizagem.

3.      Conhecimento mediado pelo mundo e por Ulisses
           Aprender a viver, ter conhecimento de si e do mundo são os lemas de Lóri que tanto a angustia e a faz se sentir um nada, mas diante de tudo,  inclusive do medo do fracasso, ela busca ser o que não conseguiu ser, sua coragem e audácia é fruto dos olhos fixos no faltado, apesar de, como o próprio Ulisses aconselha ela precisa transcender rumo a esse mundo que lhe cerca:
Não sabia o que fazer de si própria, já nascido, senão isto: Tu, ó Deus, que eu amo como quem cai no nada. Depois foi fácil telefonar para Ulisses e dizer-lhe que mudara de idéia e que podia ir esperá-la no bar. Era cruel o que fazia consigo mesma: aproveitar que estarem carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta. Mas doía demais mexer-se nesse sentido.[15]

            Uma das viagens complexas, e talvez, mais angustiantes é a do conhecimento, muitas vezes abre-se caminho, outras vezes feridas, e quanto mais se aprofundar nesse conhecimento se sofre, é claro que com tudo isso por mais paradoxal que pareça, a aprendizagem é grandiosa e bela. Esse sofrimento é necessário para que Lóri chegue ao conhecimento de si mesma, sendo assim, a aprendizagem se dá de forma lenta, tão lenta que nos dá a idéia de uma viagem longínqua, que nos é confirmado no inicio e no fim da obra clariceana, que começa com a vírgula e termina com dois pontos, propositalmente talvez para dizer que a protagonista estará sempre a aprender e vindo a ser, e aos poucos construindo sua vida, é o que nos diz o trecho seguinte: “Talvez fossem os seus “apesar de” que Ulisses dissera, cheios de angústias, e desentendimento de si própria, a tivesse levando a construir pouco a pouco uma vida. ”[16] 
Lóri busca no exterior a reafirmação de seu existir por meio de Ulisses, que lhe ensina a ter uma relação de aprendizagem com o mundo dos fenômenos. Estar sempre se colocando para fora a procura de, ou voltar-se para dentro de si é característica da consciência, ou seja, trata-se de um ser sempre voltado para o transcendente sem esquecer-se de si próprio. Esta relação é exclusivamente do Para si. Em Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, é usada toda uma simbologia para se chegar ao conhecimento de si, e do mundo a exemplo da maçã, que nos dá a idéia de bem e mal, vida e morte, ou seja, passagem transcendental. Dessa forma a maçã sempre será vista de duas maneiras que se contrapõem:

A maçã é simbolicamente utilizada em diversos sentidos aparentemente distintos, mas que mais ou menos se aproximam: é o caso do pomo da discórdia, atribuído ao herói Páris; dos pomos de ouro do jardim das Hespérides, que são frutos de imortalidade; da maçã consumida por Adão e Eva; da maçã do Cântico dos Cânticos que representa, ensina Orígenes, a fecundidade do Verbo divino, seu sabor e seu odor. Trata-se, portanto, em todas as circunstâncias, de um meio de conhecimento, mas que ora é o fruto da Árvore da Vida, ora o da Árvore do Conhecimento do bem e do mal: conhecimento unificador, que confere imortalidade, ou conhecimento desagregador, que provoca a queda. (...) A maçã seria o símbolo deste conhecimento [do bem e do mal] e a colocação de uma necessidade: a de escolher.[17]

Lóri também reconhece na maçã o fruto do conhecimento, pois quando é movida para um momento crucial de análise, o ato de morder a maçã lhe conferiu um momento de autoconhecimento. Ao contrário de Eva, Lóri ao degustar o fruto é levada a um estado de êxtase, levada como ela própria diz “ao Paraíso”. A partir daquele momento ela não só conhece o mal, mas também se norteia do bem, o bem que lhe confere graça, que a faz esquecer a sua “Dor de ser” como também faz com que ela transponha caminhos para uma profunda aprendizagem:
Foi no dia seguinte que entrando em casa viu a maçã solta sobre a mesa. Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maca com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a mesa para vê-la como antes. E era como se visse a fotografia de uma maçã no espaço vazio. Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate — então devagar, deu-lhe uma mordida. E, oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso. Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo — de um estado de graça. [18]

Na história judaico-cristã a simbologia ou mito do fruto proibido surge com o propósito de nos dá uma resposta à origem do mal, embora no contexto bíblico não cite o nome do fruto. Designou-se a maçã como tal, talvez por sua beleza, doçura e leveza além de ficar conhecida também como fruto do conhecimento, que representa não só o elemento proibido para Adão e Eva, o ato maior de desobediência a uma ordem dada por Deus, como também estão contidas várias outras conotações, como as da liberdade e da escolha. Partindo desse princípio, o fato do primeiro casal conhecer o fruto o induziria a muitos questionamentos relativos à sua devida obediência ao criador. Representa a escolha humana do conhecimento entre o bem e o mal, percebe-se isso na citação Bíblica que diz:”E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim, comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”[19] (BÍBLIA, Gênesis, pag.4. cap.2. v16, 17).
Através de uma vida fora do Éden eles seriam levados a fazer várias opções, a escolha de viver fora de um Paraíso perfeito, de terem suas responsabilidades e, conseqüentemente não dependerem tanto do seu progenitor, seria cortado, dessa forma, o cordão umbilical entre o criador e suas criaturas.
            Na relação fenomênica entre o Para si e o mundo, este ser que em si mesmo é indeterminado, passa a sofrer uma determinação e uma significação que lhe é atribuída pela consciência. A consciência humana é, dessa forma, o único meio pelo qual as significações aparecem no mundo, ou seja, só o homem pode dar significado às coisas. O esforço perpétuo exigido por Ulisses a esse exercício de aprendizagem de si e do mundo, leva Lóri a precisar cada vez mais dele:
De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé — muita coragem, fé em quê?
Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo.[20]
        
    Ulisses era paciente porque sabia que o processo de aprendizagem é lento, que primeiro começa com o eu identitário, procurar saber quem é, afirmar ou reafirmar a própria individualidade para melhor relacionar. A aprendizagem se dá a nível de indivíduo, sendo um percurso que embora alguém possa ensinar, encaminhar, conduzir, requer o querer de cada um. Cada pessoa tem sua forma diferente de interiorizar o conhecimento, buscar o saber é também uma busca pela liberdade que o sujeito tanto quer e procura, daí vêm as novas formas de educação que prepara o sujeito para uma liberdade futura, autonomia econômica, familiar. No caso em questão, a liberdade e a aprendizagem de Lóri é muito importante para o seu crescimento intrapessoal, uma vez que a ajudará na sua relação com Ulisses e com os demais: “Você tinha mim dito que, quando me perguntasse meu nome eu não dissesse Lóri, mas “eu”. Pois só agora eu me chamo “eu”. E digo meu eu está apaixonado pelo teu eu. Então nós é. Ulisses, nós é original.”[21]  
        O outro é importante justamente porque ele nos devolve ou nos mostra o que somos isso só é possível se o ser Para si apresentar-se socialmente, como vê-se num dos pensamentos de Husserl, citado por Sartre:“porque toda consciência é consciência de alguma coisa”. Não tem como existir sem ter a consciência de outras coisas, sem ter essa relação com o mundo, este que me desloca para além do meu ser e me faz experimentar a sensação incômoda de existir. O outro pode ser tão fundamental na vida do sujeito como também pode ser um inferno, ou seja, quando busca evitar ou fazer com que esse outro não progrida na construção de seus sonhos, de sua essência. A esse respeito, Sartre afirma que: “A vergonha ou orgulho revelam-me o olhar do outro e, nos confins desse olhar revelam-me a mim mesmo; são eles que fazem viver não conhecer a situação do ser visto.”[22]  
O que mais aflige Loreley é a constante busca por conhecimento, ou melhor, por autoconhecimento, a protagonista anseia que esse momento de busca se concretize com o tão esperado momento de encontro consigo mesma, atrelado a um desejo insciente que Lóri nutre pelo fruto do conhecimento, ou seja, pela maçã, sua fruta predileta. Esse fruto permeia uma total noção de proibição, atração e conseqüentemente descoberta, a trajetória de Loreley, dessa forma, é permeada por simbologias, conferindo a protagonista de um maior encantamento.
Lóri, encontra em Ulisses um novo caminho para o conhecimento, e também para o verdadeiro amor, pois o mesmo volta seu olhar para ela de um modo tão especial, que vem a contribuir para a sua formação. A partir do momento que ambos se encontraram, suas vidas não foram mais as mesmas, pois Lóri tinha fome, fome de saber e de amar. Enquanto ao saber, Lóri já tinha consciência do que era importante na sua formação, e sobre seu novo desejo de amar este era diferencial entre todas as experiências que ela já teve, pois algo deslumbrante acontecia em sua vida e a transportava para um lugar incomum.
          Na escuridão da noite, ela pensava cada vez mais em se encontrar com Ulisses. Em um certo encontro, apareceu à porta com um suéter e um guarda-chuva vermelho, que, simbolicamente, pode ser lido como um remissão ao processo de maturidade que Lóri construiu. Estava novamente “virgem” para um novo “germinar”, compreendia essa mudança de fase de tal forma que ambicionada pela beleza do ato de estar vivendo. Questionou-se sobre quem ela era, e de súbito se assustara, pois não havia respostas, certamente jamais encontraria.
Fizera planos para a sua primeira noite ao lado de Ulisses, onde os dois encontrariam o uno, não suportava mais ser só, queria fundir-se a ele. Comprou um vestido branco, introduzindo a compreensão da pureza e inocência que agora a pertencia, e flutuou nos pensamentos mais carnais existentes entre um homem e uma mulher. A percepção de Ulisses sobre o estado de graça de Lóri proporcionou-lhe a liberdade de, querer ou não, vê-lo mais, sabendo ela que ele ainda estaria a sua espera.
A individualidade e interiorização com que compreendeu o mundo a fez mulher, com a mais perfeita das características, era conscientemente feliz e dona de si. Com muita coragem, foi ao encontro de Ulisses, concretizando uma noite inesquecível na qual ambos se amaram e conversaram a respeito de si mesmos e das conseqüências de viver socialmente. Nesse momento, Lóri quebra um dos tabus da sociedade para a qual a mulher não poderia ir ao encontro de um homem em sua casa e com este ter relação antes do casamento, sendo a mulher configurada como um símbolo de castidade e servidão.      
Lispector, com uma literatura atenta às questões femininas, narra esse capítulo que revela a mulher contemporânea e como ela seria socialmente vista, pois Loreley quebra todas as regras que a definem e a sustentam. O Momento culminante em que se dá a aprendizagem de Loreley concretiza-se a partir do instante em que ela e Ulisses se entregam fisicamente um ao outro. A trajetória de Lóri toma então um novo rumo, ela deixa de se sentir um ser vazio, e passa a enveredar-se pelo caminho das novas descobertas, tornando-se um ser capaz de enfrentar qualquer desafio que as circunstâncias da vida vierem a lhe afligir, como afirma Lóri na narrativa: “_Não sei, meu amor, mas sei que o meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo”.[23]

4.      Considerações
 
Através de um estudo existencialista dos personagens clariceanos Loreley e Ulisses em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, percebe-se uma busca incansável pelo conhecimento de si, do mundo, que resulta numa jornada de saber e prazer, sempre aberto e contínuo.
            A análise da personagem Loreley, neste artigo, foi de extrema relevância para nós, levando-nos a um envolvimento com uma narrativa carregada de simbologias que fizeram um estalo na existência da personagem. Loreley mostrou-se tão ausente de si mesma e, ao mesmo tempo, mascarada de medo, de dor e de uma singeleza que nos levou a perscrutá-la intimamente. Conseqüentemente a trajetória para a aprendizagem proporcionada por Ulisses revelou uma mulher preparada para a condição humana que se norteia entre faltas e, paradoxalmente, conquistas.




REFERÊNCIAS:

LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Especial ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

SARTRE, Jean- Paul. O Ser e o Nada- Ensaio de Ontologia fenomenológica. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números) Ed. 23º José Olympio. Rio de Janeiro, 2009.

BÍBLIA SAGRADA. Gêneses. Edição Loyola, São Paulo, 2001.



[1]  Discentes do Curso de Letras, turma 2009.2, Universidade do Estado da Bahia - Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas - Campus XVI – Irecê - BA
**Professor Orientador
[2]  LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Editora Francisco Alves. Ed 17. Rio de Janeiro, 1990.
[3]  LISPECTOR, 1990 p. 23
[4]  LISPECTOR, 1990 p. 60
[5]  LISPECTOR, 1990 p.26
[6] SARTRE, 1997 p.133
[7]  LISPECTOR ,1990 P. 114
[8] SARTRE, 1997 p.141
[9] CHEVALIER. 2009, p.640
[10] LISPECTOR, 1990 p.88
[11] SARTRE, 1997 p. 136
[12] LISPECTOR, 1990 p.12
[13] SARTRE, 1997 p.137
[14] LISPECTOR, 1990 p.27
[15] LISPECTOR, 1990 p.35
[16] LISPECTOR, 1990 p. 35
[17] CHEVALIER, 2009 p.572
[18] LISPECTOR1990 p. 74
[19] GÊNESES, p. 4
[20] LISPECTOR, 1990 p.39
[21] LISPECTOR, 1990 p.30
[22] SARTRE, 1997 p.336
[23] LISPECTOR, 1990 p. 155