Artigo Apresentado no SIPE 2010.1
O Existencialismo em A hora da estrela
Ailane Dias da Silva[1]
Elka Viviana de Paula
Jamile Alves dos Anjos
Josafá Alecrim de Almeida
Malane Apolonio da Silva
Maria Aurinívea de Assis**
Resumo: Este artigo expõe uma análise sobre a personagem Macabéa no romance A hora da estrela de Clarice Lispector e a obra O Ser e o Nada de Jean- Paul Sartre. Levando em consideração conceitos sartreanos e as características de Macabéa, busca-se evidenciar na protagonista clariceana um perfil existencialista, onde o ser “em si” afirma-se em quase toda a narrativa dando ênfase a idéia de completude, inconsciência do sujeito, representado como objeto manipulável e sem nenhuma angústia de existir. O ser “para si” é exposto momentos antes da morte de Macabéa, na qual a protagonista toma consciência de si.
Palavras-Chaves: Existencialismo; Sartre; Macabéa;
Nunca pensará
em ”eu sou eu”.¹
1. Introdução
A partir de estudos feitos sobre a obra A hora da estrela, de Clarice Lispector, e sobre pontos relevantes em O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre, busca-se analisar, neste artigo, a trajetória da protagonista Macabéa, tomando como base conceitos existencialistas, como as noções do ser “em si” e o ser “para si” presentes na obra sartreana.
Na obra de Sartre O Ser e o Nada há reflexões acerca de um plano fenomenológico imanente ao plano ontológico. O filósofo parte das aparições e estabelece os dois tipos de seres: o “em si” (o mundo ou fenômeno) e o “para si” (a consciência).
A hora da estrela foi publicada em 26 de outubro 1977, sendo o último livro da escritora Clarice Lispector que faleceu em 9 de dezembro de 1977. A obra foi adaptada para o cinema brasileiro por Suzana Amaral em 1985, tendo como protagonista a atriz Marcélia Cartaxo que em retribuição ao sucesso obteve prêmios no Festival de Brasília, Festival de Berlim e Festival de Havana.
A narrativa passa-se no sertão de Alagoas e, também, no Rio de Janeiro, porém, desde o início, a história é classificada como simples, porém difícil, pois contar sobre alguém de existência duvidosa é complexo, mas o narrador se esforça para começar a tornar nítida a personagem principal.
2. O ser “em si”
É a aparição, é aquilo que se manifesta, fechado em si, não se opõe ao ser porque não tem consciência de si, não tem um dentro que se contrapõe a um fora, é a essência acabada, definida.
3. O “para si”
Enquanto o primeiro é, o “para si” é o que não é, ou seja, este tem consciência de si, não é um ser inerte. Antes é jogado no mundo e se constitui como pessoa, como sujeito relacionando-se com o fenômeno de ser, com o “em si” e com o outro para construir sua essência. Antes dessa relação, o “para si” é vazio, é nada de ser, onde se completa na busca do que está fora de si. Além de ser sujeito do conhecimento, o para si é dono de sua própria liberdade, esta lhe causa angústia por lhe oferecer escolha em sua realização. O ser “para si” vive no dilema onde, muitas vezes, o outro impede essa realização, mas o mesmo precisa conviver com esse que o constitui e o revela.
4. O Existencialismo em A hora da estrela
A narrativa inicia-se contando passo a passo a angústia de escrever sobre uma moça de existência questionável, sendo necessário tornar visível essa história.
Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente –- mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humilde — limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. [2]
A jovem Macabéa que aos dois anos de idade perdera os pais no sertão de Alagoas e que passa a viver na capital Maceió com sua tia beata, tinha uma magreza espantosa, ombros curvos, encardida, rosto amarelado e com manchas, sendo apresentada nas primeiras páginas do romance como uma moça anônima, pois ela ainda não tinha semeado a emoção de viver: “já que sou o jeito é ser” [3].
Desde que nascera, Macabéa “vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor”[4], o ser “em si” se sobressai, ela simplesmente é, ou seja, ela é jogada no mundo, um objeto que não tem liberdade, resta reconhecer e dar sentido a essa existência. A interação com o outro faz com que o ser humano se perceba, exista, mas Macabéa não existe para se própria, ela se desconhece.
--- que ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.[5]
Macabéa demonstra um perfil extremamente medíocre e imperceptível, um objeto a ser manipulado, pois ela não tinha consciência de si. Ela simplesmente existe “inspirando e expirando, inspirando e expirando” [6].
Jean-Paul Sartre considera em sua teoria que “A existência precede a essência”. Partindo desse pressuposto, nota-se que para o ser humano existir ele necessita ter características notáveis, definir-se, ter consciência de si, mas a figura de Macabéa ainda cristaliza a idéia de completude, de um ser acabado, sem questionamentos. Um ser “em si” não dispõe de um projeto a ser cumprido, remete-se a um ser maleável que enquanto não tomar conhecimento de si e assim promover mudanças, mostrar potencialidades e, conseqüentemente, abolir a idéia de essência definida, se reduzirá ao nada.
O ser “em-si” não possui um dentro que se oponha a um fora e seja análogo a um juízo, uma lei, uma consciência de si. O “em-si” não tem segredo é maciço.[7]
5. O encontro com a cartomante e com a morte
Datilógrafa era sua profissão. Sua tia antes de morrer lhe ofereceu este curso, um favor que lhe proporcionou a dignidade e a empregou na cidade do Rio de janeiro, porém Macabéa acreditava-se feliz, por isso, não sonhava alto. A felicidade para ela fazia parte da rotina “Ela pensava que a pessoa era obrigada a ser feliz. Então era” [8].
A convivência com sua tia, seu Raimundo, Olímpico e Glória deixaram marcas que tornavam ainda mais difícil a sua compreensão e transcendência, transformando-a em um ser “em si”, este ser que ainda desconhecia a liberdade que faz da vida uma constante angústia, um dualismo acarretado de responsabilidades na construção do seu projeto futuro, sendo assim, um ser “para-si”.
Glória, talvez por remorso de ter tomado Olímpico, namorado de Macabéa, indica-lhe uma cartomante. Macabéa decide procurá-la, uma decisão que mudará sua vida. Em busca de construir o seu destino, de procurar um novo amor, vai ao encontro da cartomante. Esta lhe revela o seu passado, presente e futuro. Macabéa sente sua existência, pois aquela que “Nunca pensara em “eu sou eu”[9], estava agora “grávida de futuro” [10]. Ela percebe que não é feliz, e que precisa construir sua vida, buscar sua felicidade, realizar-se como ser, dando-se conta de seu passado horrível, consciente de seu presente, vislumbrando um futuro promissor.
Ao observar as coisas que existia na casa da cartomante, Macabéa se encontra no artificial do ambiente, agora ela sabe que não é. É o outro (para si) e as coisas da casa (em si) que revela quem ela é, e quem ela precisa “vir-a-ser”.
Enquanto isso olhava com admiração e respeito a sala onde estava. Lá tudo era de luxo. Matéria plástica amarela nas poltronas e sofás. E até flores de plástico. Plástico era o máximo estava boquiaberta. [11]
Este reconhecimento agora faz parte de sua existência, pois, ao se dar conta dessa realidade, ela sai da casa da cartomante cheia de si, de sonhos, de objetivos que “até para atravessar a rua ela já era outra pessoa”. [12]
.
Então, se o conhecer pertence somente ao para-si, isso se deve ao fato de que somente o para-si é o próprio aparecer a si como não sendo aquilo que conhece. E, como aqui aparência e ser constituem a mesma coisa, já que o para-si tem o ser de sua aparência-, devemos concluir que o para-si encerra em seu ser o ser do objeto que ele não é, na medida em que em seu ser está em questão o seu ser como não sendo este ser.[13]
Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa é atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, batendo a cabeça no meio fio, ela fica ferida e muitas pessoas se aproximam e a observam, dando-lhe a certeza de sua existência “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.[14]”. Esta é a sua hora da estrela em que lhe concretiza a consciência de si, do seu “para si”, este que também é um ser para morte.
Pouco antes de sua morte, encerrara-se a sua completude, surgindo o seu verdadeiro “para-si”, cheio de angústias, com perspectivas futuras, estava ela agora consciente de si, pronta para se responsabilizar por seus atos. Dessa forma, Macabéa transcende do “em si” para ser o que não é e em sua morte ela encerra em seu ser o objeto que ela não é.
Considerações
Ao confrontarmos a obra clariceana com o existencialismo de Jean-Paul Sartre notamos a presença do ser “em si” na protagonista Macabéa, que, de início, demonstra uma total anulação e inconsciência de sua existência.
Macabéa traz consigo a falta do questionamento sobre sua vida, ela desconhece qualquer reflexão sobre as coisas que a cercam e se satisfaz com a rotina proporcionada pelas pessoas que a tornava cada vez mais um ser “em si”, manipulável, de uma ingenuidade que beirava a estupidez. Possuía uma essência definida, ou seja, um objeto sem utilidade na sociedade em que estava inserida.
O momento de transcendência de Macabéa se dá na sua ida a cartomante, onde ela torna-se um ser “para si” a partir do contato visual com o ambiente e as previsões ambiciosas feitas pela cartomante Dª Carlota. Finalmente, Macabéa teria um destino, com perspectivas de felicidade, foi como saíra de lá.
Através da leitura da obra sartreana, podemos notar o ser “em si” e o “para si” na trajetória da protagonista clariceana de forma clara, partindo de um olhar direcionado as características de Macabéa que confirmam os conceitos existenciais defendidos por Sartre.
Referências
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Especial ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
SARTRE, Jean- Paul. O Ser e o Nada- Ensaio de Ontologia fenomenológica. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
[1]Docentes do curso de Letras, turma 2009.2, Universidade do Estado da Bahia - Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas - Campus XVI – Irecê - BA
**Professor Orientador
¹LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Especial. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
[2]LISPECTOR, 1998 p.15
[3] Idem, 1998 p. 33
[4] Idem, 1998 p. 23
[5] Idem, 1998 p. 24
[6] Idem, 1998p. 23
[7] SARTRE, 1943 p 39.
[8] LISPECTOR, 1998 p. 27
[9] LISPECTOR, 1998 p. 36
[10] LISPECTOR, 1998 p. 79
[11] LISPECTOR, 1998 p. 72
[12] LISPECTOR, 1998 p. 79
[13] SARTRE, 1943 p. 237
[14] LISPECTOR, 1998 p. 80
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