Resumo construído por Ailane Dias, Elka Viviana, Jamile Alves, Josafá Alecrim, Malane Apolonio e Tarciane Pereira.
Diálogos Intertextuais: Clarice, Machado e suas Cartomantes
Diálogos Intertextuais: Clarice, Machado e suas Cartomantes
O presente trabalho busca levantar alguns aspectos comparativos entre as personagens cartomantes presentes no conto de Machado de Assis “A cartomante” e no livro "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector, apresentando, sucintamente, elementos de intertextualidade contidos em tais textos.
A partir de explanações realizadas em sala de aula, na disciplina Estudos Teóricos do Texto Literário idealizou-se desenvolver, como tema do trabalho de SIPE, uma análise das mencionadas personagens das cartomantes.
O termo intertextualidade foi cunhado por Julia Kristeva no final dos anos 60, com a função de fazer análise de textos. Kristeva observou que intertextualidade faz supor “a inserção da história (sociedade) em um texto e deste texto na história” (Discurso e Mudança Social p. 243). Ela quer dizer que o texto absorve e é construído de textos do passado, ou seja, que o texto responde reacentua e retrabalha textos passados e, assim fazendo, ajuda a fazer história e contribui para processos de mudança mais amplos, antecipando e transformando textos subseqüentes. A rápida transformação e reestruturação de tradições textuais e de ordens de discursos são um extraordinário fenômeno, possibilitando que a intertextualidade seja um foco de escolha possível na análise de textos literários.
A intertextualidade consiste na presença de determinados aspectos ou características de uma dada obra em outra. Segundo Norman Faiclough (2001) no capítulo em que discute acerca da intertextualidade, em seu livro intitulado Discurso e Mudança Social, "cada enunciado é um elo na cadeia de comunicação”. Todos os enunciados são povoados e, na verdade, são constituídos por pedaços de enunciados de outros mais ou menos explícitos ou completos.
Passando a observar as personagens cartomantes de Machado de Assis e Clarice Lispector, percebe-se que elas participam de histórias nas quais se põem a mostra suas capacidades discursivas para creditar suas consultas. A inteligência exposta pelas cartomantes contempla a fragilidade de Camilo e de Macabéa. A cartomante machadiana diferencia-se da cartomante de Clarice Lispector em alguns aspectos de sua composição. No conto “A Cartomante”, de Machado nota-se o estilo sombrio (p.243) adotado pela cartomante, que tem um semblante fechado e desconfiado e não é nomeada pelo narrador. Ela traz as “unhas descuradas”, “magra com grandes olhos sonsos e agudos” (p. 243), porém dentes que desmentiam as unhas; ambiente mórbido indicando descuido; um ar de pobreza, que se une a ambição demonstrada por ela. Porém, na narrativa de A Hora da Estrela, chama à atenção os traços de naturalidade no ambiente contemplado. Nada convencional a uma cartomante, quando se leva em consideração o signo que ela adota na sociedade.
Carinhosa ao seu modo, a cartomante clariceana é nomeada, chamada de madama Carlota. Ela demonstra uma fisionomia vibrante e espontânea no seu discurso, desmistificando a imagem de uma cartomante com aspecto mórbido. Apresenta-se vaidosa, “pintava a boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas faces oleosas duas rodelas de ruge brilhoso” (p.91). Gostava de se sentir bonita e desejável, exagerando, assim, no uso da maquilagem. Em seu diálogo com Macabéa, traz diversas vezes à tona seu apreço por Jesus e pela fé, confessando, concomitantemente, sempre ter usado a inteligência para superar os problemas do cotidiano.
É possível notar que a linguagem das cartomantes é algo muito peculiar, enquanto a cartomante de Clarice tem uma linguagem carregada de usos no diminutivo, a cartomante de Machado nos parece uma mulher austera e discreta.
Um dos pontos cruciais que unem as duas cartomantes se baseia no fato das duas predizerem erroneamente os destinos de Camilo e Macabéa. Madama Carlota, através das suas previsões, faz com que Macabéa tome consciência da sua existência, criando esta a perspectiva de se tornar uma mulher atraente a ponto de encontrar um príncipe encantado, que se casaria com ela, lhe daria belos vestidos, casacos de pele. Finalmente, Macabéa encontraria seu maravilhoso destino, pois ela tornou-se “uma pessoa grávida de futuro” (p.79).
No conto machadiano, a cartomante faz Camilo acreditar que tudo daria certo, “Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo” (p. 244). Naquele momento Camilo, “chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris;” (p. 245). O ápice dos contos se revela de forma trágica, quando os dois personagens tomam as previsões das cartomantes como verdades absolutas e são desenganados em suas crenças.
Segundo Eagleton em Teoria da Literatura: uma introdução “não há releitura de uma obra que não seja também uma reescritura” (p.19). E assim, tendo em vista a intertextualidade como fonte de criação e recriação, percebe-se que a mesma sempre está presente nos discursos, seja de forma explicita ou implícita, intencional ou não. A intertextualidade no conto “A Cartomante”, de Machado de Assis, e no episódio “A Cartomante”, do romance de Clarice Lispector evidencia a relação existente entre os discursos, reafirmando a consideração de que nenhum “texto é puro”, mas que todo “texto é mosaico de outros textos”.
Referências:
ASSIS, Machado de. Seus Trinta Melhores Contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma introdução. Tradução Waltensir Dutra. São Paulo: Martins fontes, 2006.
FAIRCLOUGH, NORMAN. Discurso e Mudança Social. Tradução de Izabel Magalhães. Brasília: Universidade de Brasília, 2001.
LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. 21ª ED. Rio de Janeiro: Francisco Alves 1993.

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